discussoes a cerca do texto de Emir Sader - Autonomia ou hegemonia?

Na minha opinião é muito difícil para quem não vive uma situação de discriminação – cotidianamente como as mulheres, gays e lésbicas, sem tetos, jovens, idosos e negros – entenderem a necessidade de se organizar de uma maneira autônoma. Isto não significa que não se possa também participar de outras instituições como governo, partidos políticos, sindicatos. No caso das mulheres estas instituições que sempre impediram a real participação das mulheres. Pois as mulhres nunca estiveram tão dispostas a participarem e quantas e quantas desistem porque se repete tudo que acontece nas instituições patronais, são jogadas a cuidarem da infra da instituição, não acessam ao poder, marcam reuniões em horários que impedem sua participação, assédio sexual, tem que pensar como homnes, etc.

Acredito que ninguém liberta ninguém, no máximo se dá apoio e se milita junto com quem necessita se libertar para valer. Algumas pessoas entendidas em Marx dizem que este afirma que a consciência vem da necessidade objetiva de cada ser ou de cada classe. Para mim a primeira divisão de classe foi estabelecida entre o homem e a mulher, as mulheres são cidadãs de 2ª categoria a pelo menos 10.000 aos atrás em qualquer classe social. E se não se tratar desta questão sempre ficará fora mais da metade da população, que em sua maioria estão ocupadas em garantir a infra para os outros 50% ou estão sendo treinadas para isto. E enfiar a cunha neste problemão é sem dúvida enfrentar o capitalismo de frente, tanto é que o capitalismo investe especificamente nas mulheres para mantê-las neste patamar.

Quem atua em movimentos sociais autônomos muitas vezes tem mais preparo e força emocional para agüentar o massacre que é a luta de poder nestas instituições,onde impera o ego - que são extremamente autoritárias sempre um grupo mandando e que não tem representatividade, que fala em participação direta, mas não pratica no seu cotidiano. A hierarquia estabelecida nestas instituições sufoca as pessoas e não as deixa florescer.

Ser famosa/o, principalmente por ocupar um espaço privilegiado conseguir acessos a certos veículos de comunicação não significa representatividade, para mim representatividade é estar discutindo coletivamente e traçando estratégias e planejando as ações. E não é isto que acontece alguns se intitulam terem a saída para os problemas e dão receitas muitas vezes descontextualizadas até mesmo do momento e da necessidade da maioria.
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Terezinha, belo texto!

Me lembra você na mesa, lá em 2004, no então chamado "Palácio Anhangabau", nova sede do governo municipal, da Marta, no ato da entrega do centro ao BID, quebrando o protocolo cerimonial com um discurso looongo sobre estas e outras tantas questões. Ainda há o texto?

Só discordo quando fala: "Algumas pessoas entendidas em Marx dizem que este afirma que a consciência vem da necessidade objetiva de cada ser ou de cada classe." Estas "algumas pessoas" devam estar pouco entendidas. De que "consciência" estamos falando? Se é pela luta pela sobrevivência, como a pobreza é fundamentalmente - e já reconhecida como tal (não?) - uma questão das mulheres, tudo bem, mas - como Erundina disse anteontem - para entender porque nunca vamos solucionar a questão da habitação e para não criar expectativas falsas, temos que entender e combater a engrenagem que nos tritura. Ou seja: a "consciência" precisa de um aprofundamento científico, que vai além (adquirido de outra forma) da simples percepção das necessidades que experimentamos "objetivamente" (na verdade: subjetivamente) no dia-dia. Pelo menos é assim que eu entendi Marx e que, aliás, o feminismo incorporou.

O problema é que - aí sim! - nosso mundo ainda é extremamente machista, o que implica que as pessoas que não são "macho" (seja homem ou mulher) no máximo ficam secretariando..."ocupadas em garantir a infra".

A discussão vai longe, mas valeu! Vamo!
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Não resisti li novamente o que falas...e resolvi comentar

Quando falo de que a consciência segundo suas condições objetivas - é mais para reforçar que quando um grupo de pessoas impulsionadas pela sua condição resolvem se organizar já foi anteriormente dado a primeira etapa de elaboração destas condições já se está em outro patamar...porque quem está preocupado com a sobrevivência pode até ter uma elaboração desta condição, mas objetivamente não encontra tempo para que isto se traduza numa organização coletiva...vejo isto com a ação cotidiana que fazemos nas favelas não tem uma favela que chego no fim de semana em que não encontro algumas pessoas que já estão neste estágio - que colocam propostas mais elaboradas e que fazem links com políticas mais macros -- que tem uma consciência de sua classe - e que é por isto que desconfiam de nossas propostas....porque dizem que nunca ninguém as/os ouviram as/os convidaram para construir um projeto....que afirmam que se eles não se virarem e fizerem ninguém fará por elas/eles ....e outra as mulheres que querem transformar a sociedade, o planeta tem o se jeito - têm a sua forma e querem fazer o seu caminho para chegar no mesmo sonho a conquista de uma sociedade com justiça social, que se respeite as diferenças e diversidade de pensamento...QUE TENHAM O DIREITO DE IR E VIR LIVREMENTE E POSSAM DECIDIR E APROPRIAR-SE DE SEU CORPO CONDIÇÃO SI NE QUA NON PARA SEREM CIDADÃS....
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Se a intensão era me prococar e angustiar este mérito foi cumprido....Depois de ontem parei no final da noite para pensar...e refletir ....sobre tudo que já vivi....e as discussões intermináveis que tínhamos pq como não tinha liberdade...varavámos noites e madrugadas discutindo o projeto hegemônico a ponto de para uma eleição de DCE no ano de 1975 termos 06 ou 07 chapas que discutia desde revolução passando por reforma agrária - liberdades democráticas - táticas e estratégias quando nos dávamos ao luxo de achar que quem não concordava com um ponto da carta programa de seu grupo era reacionário, era reformista...era troskista...stalinista....maoista.....e issstasssss.....e não estava construindo o projeto hegemônico....O movimento feminista já estava a toda - e ninguém reclamava das mulheres irem a frente em Brasilia - praticamente sós pq pouquíssimos eram os homens que acompanhavam as manifestações em Brasília que dava EStado de emergência - aí, sim, as mulheres podiam se organizar enquanto segmento .. Nunca vi ninguém reclamar....estávamos abrindo trincheiras - fizemos mais de uma dezena destas manifestações....contra o arracho salarial - de 1983 pelo Delfim Neto, por exemplo....Quanto as falas do Marx conversaremos melhor mais tarde...

Hoje volta novamente esta discussão que vejo necessária...e temos que enfrentá-la ....
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o texto está colado abaixo, Instigante...
copiei os comentários também...
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http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id...

07/07/2008

Emir Sader

Autonomia ou hegemonia?

A resistência ao neoliberalismo, especialmente ao longo da década de 90, foi protagonizada particularmente pelos movimentos sociais, seja pela renúncia de muitas forças partidárias a desempenhar esse papel, seja porque os efeitos mais cruéis do neoliberalismo se dão exatamente no plano social. Formulou-se nesse momento a expressão "autonomia dos movimentos sociais", com o sentido de lutar contra a subordinação a forças políticas e lutar pelo predomínio das forças que mais diretamente expressavam os interesses populares.

Mas que significado pode ter a autonomia do social? Autonomia diante do quê? O "outro mundo possível" pode ser construído a partir da "autonomia do social"?

Essa autonomia aponta para a centralidade da "sociedade civil", para a contraposição ao Estado, à política, aos partidos, ao poder – conforme ficou consagrado na Carta do Forum Social Mundial. No limite, se identifica com duas versões teóricas: a de Toni Negri, por um lado, a de John Holloway, por outro, ambas tendo em comum a contraposição ao Estado, promovendo, em contraposição, a esfera social.

Essa concepção primou durante a década de 90 quando, colocadas na defensiva, as forças anti-neoliberais se concentraram no plano social, desde onde desataram suas principais mobilizações. A partir do momento que se evidenciou o desgaste precoce do modelo neoliberal – particularmente depois das crises nas três maiores economias do continente, México, Brasil e Argentina -, a luta passou a outra fase: a de construção de alternativas e a de disputa por uma nova direção política.

Foram se sucedendo assim as eleições de presidentes, como rejeição dos governos neoliberais, em 8 países do continente – já com três reeleições -, marcando a fase de transferência da esfera predominante para a política.

Quem não entendeu essa nova fase, deixou de captar o andamento da luta anti-neoliberal. Quem persistiu na "autonomia dos movimentos sociais", ficou relegado ao corporativismo, opondo autonomia a hegemonia e renunciando à luta pela construção do "outro mundo possível", que passa pela conquista de governos, para afirmar direitos – dado que o neoliberalismo é uma máquina de expropriação de direitos. Além de que outros elementos essenciais do anti-neoliberalismo, como a regulação da circulação do capital financeiro, a recuperação da capacidade reguladora do Estado, o freio aos processos de privatização, o avanço nos processos de integração regional, entre outros, supõe ações governamentais.

Transformar a autonomia numa categoria absoluta – em qualquer esfera: social, política, econômica ou ideológica – significa não captar o peso das outras instâncias e entender a política como uma esfera entre outros e não como a síntese delas todas. A avaliação dos governos tem que ser feita em função da natureza do seu programa e da sua capacidade de realização, no caso do nosso continente, no período atual, pela ação contra o modelo neoliberal e a favor dos processos de integração regional e contra os TLCs.

Os movimentos sociais são um componente, muito importante, mas não o único, do campo popular ou campo da esquerda, como se queira chamar, ao qual pertencem também forças políticas, governos, locais, estaduais ou nacionais. Nunca os movimentos sociais, autonomamente, dirigiram ou dirigem um processo de transformações na sociedade. Para fazê-lo, tiveram que, como na Bolívia, construir um partido – nesse caso, o MAS - isto é, restabelecer, de uma nova forma, as relações com a esfera política, para poder construir uma hegemonia alternativa.

A autonomia que faz sentido na luta emancipatória é aquela que se opõe à subordinação dos interesses populares e não a que se opõe à hegemonia, que articula obrigatoriamente as esferas econômica, social e ideológica, no plano político. A passagem da defensiva – concentrada na resistência social – à luta por uma nova hegemonia, caracteriza a década atual no continente, que se transformou, de laboratório de experiências neoliberais, no elo mais frágil da cadeia neoliberal no mundo.

Postado por Emir Sader às 09:15

4 Comentários

Carlos Eduardo Carneiro diz:

08/07/2008

O central no debate são os conceitos de autonomia e hegemonia... O Emir está com a razão: a autonomia deve estar subordinada a um projeto maior que é a hegemonia dos trabalhadores. Devemos manter a especificidade de cada movimento (negro, mulheres, etc.), ou seja, manter sua autonomia, mas é a esfera política a única capaz de universalizar e unificar essas lutas e suas conquistas. Marx concebia, a revolução socialista como uma "revolução política com alma social".

José Marques Porto diz:

07/07/2008

Professor Emir e camaradas da Agência Carta Maior,
No caso brasiliano usando a terminilogia proposta por Porto-Gonçalves, em função da má qualidade do nosso processo de transição ditadura-democracia, temos uma democracia de baixa qualidade. Agravada pelo fenõmeno que assola todas as democracias no mundo a economização da política, que faz os governantes eleitos, meros gerentes de crise, além de governos pautados pelas grandes corporações que financiam o processo eleitoral. Se pegarmos apenas o aspecto ambiental, que, Marx apontava já em sua tese de doutoramento, como uma questão central na luta contra a hegemonia do capital veremos, que o problema é muito grave. O Governo do Presidente Lula, que é o mais avançado já existente pelo menos após a redemocratização é refém dos interesses da bancada ruralista e do agronegócio. Daí entendo que a saída seria a la Bolívia, pois, no quadro atual fica difícil avnaçar. Está tudo dominado. Os partidos de esquerda no Brasil não tem projeto para o país. Encontram-se dominados por uma burocracia a serviço de interesses nada populares. Fica difícil a luta política fora da sociedade civil. Dá nojo sem querer ser melhor que ninguém.

Adilson Cavalheiro Mello diz:

07/07/2008

Professor, parabéns pelas suas idéias que ajudam a iluminar momentos difíceis. Achei o texto uma introdução para um debate maior e gostaria de contribuir com algumas dúvidas- como bom aluno.

Primeiramente queria me deter um pouco mais no referencial teórico que o Sr. coloca. O Negri faz uma exposição interessante sobre as mudanças da sociedade atual e nos coloca a questão da rede como fundamental para os processos de mundança e avanço da sociedade futura. O Sr. concorda com ele? Creio que ele não desqualifica a luta politica, mas assume uma outra postura de fazer politica. Como o estado foi privatizado pelas forças neoliberais é necessário que pensemos em organizações diferenciadas para nos representar. Como posso pensar que um governo como o nosso irá representar nossa diversidade?

Segundo, como o Sr. vê a questão do ataque-no Rs- aos movimentos sociais, principalmente o MST - um dos movimentos mais articulados, no estado-? Será que os governos neoliberais não identificam como central esse ataque e não os partidos 'de esquerda"?

Terceiro, vivi duas experiências distintas em minha vida. Uma no Ne e outra no Sul. Como ativista do movimento negro, tentei analisar a estratégia desse movimento para a garantia de seus direitos e me parece que os resultados não foram muito bons para aqueles movimentos que se atrelaram aos partidos politicos. Veja o caso de Salvador, grupos como o Ilê, Olodum, Timbalada,... estão construindo um outro mundo possível, através de uma identidade territorial não permitida em muitos partidos e conseguindo resultados concretos. Enquanto que no Sul o movimento negro, que escolheu se atrelar aos partidos politicos, perde força e organização.

Obrigado por introduzir uma discussão nessa direção.
Saudações fraternas.

PEDRO MARQUES diz:

07/07/2008

qual a nova hegemonia que se constrói hoje no Brasil? a meu ver um vazio político tem se esboçado no campo da esquerda em razão da inflexão do PT rumo à elegibilidade a qualquer custo. trocou-se um projeto de transformações pofundas nas estruturas sociais, necessariamente de longo prazo, pelo imediatismo de vitórias eleitorais a qualquer preço, alimetando certos carreirismos politicos. enquanto isso a discussão mais critica a respeito do neoliberlaismo, seus efeitos e as ações politicas que deviam suscitar estão restritas a grupos ou círculos com limitadas possibilidades de interferncia no processo politico. como pensar uma alternativa hegemonica quando o principal partido de esquerda do país abdicou da perspectiva anticapitalista e se entrincheirou no aparelho estatal?penso que esse é o grande desafio para um projeto emancipatorio e necessariamente anticapitalista.

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